terça-feira, 7 de abril de 2009

Simplesmente Feliz

MAIS UM FILME DO CINEASTA INGLÊS MIKE LEIGH. SESSÕES NO CINE LUMIÈRE: 14:50 / 19:15 21:40.


Simplesmente Feliz (Happy-Go-Lucky),


Eduardo Valente


Felicidade, por que?

Os créditos iniciais nos apresentam a protagonista de Simplesmente Feliz pedalando sua bicicleta pelas ruas de Londres com um sorriso no rosto, ao som de uma música alegre.

Como se não bastasse o efusivo título do filme, logo descobriremos que ela se chama Poppy e veremos, na primeira cena de interação entre ela e outra pessoa, sua tentativa de animar o taciturno vendedor de uma livraria, ao mesmo tempo em que rejeita ao ver na prateleiras um livro chamado “Road to Reality” (O Caminho para a Realidade), preferindo folhear um livro na sessão infantil, chamado “Kingdom of the Sun” (O Reino do Sol). Tendo em vista a descrição acima, poderia ser possível (até provável, eu diria) pensar que Simplesmente Feliz é uma comédia leve, alegre, solar – no entanto, os que conheçam melhor a carreira de Mike Leigh já podem imaginar que as coisas não são simples assim (aliás, talvez nunca tenham sido tão complicadas no cinema dele).

Ou melhor, simples até são, no sentido de que o filme de Leigh, como podemos notar por esta já quase absurda superposição de hipérboles listadas acima, é extremamente didático no que pretende explorar: a felicidade como possibilidade de estado humano.


De fato, a trajetória de Poppy, em seus vários encontros com diferentes personagens ao longo do filme, parece um espelho destorcido da de Johnny, personagem de David Thewlis num dos mais bem sucedidos filmes de Leigh, Naked (1994). Se naquele filme, Leigh mergulhava sem qualquer pudor no afundamento completo de um ser humano num estado radical de miséria e sofrimento, aqui ele parece fazer exatamente o contrário, mas com o mesmo nível de radicalismo, e o filme todo chafurda na alegria quase insustentável de Poppy.

Opostos que sejam os sentimentos, logo percebemos que as intenções de Leigh não são: frente a estes exemplos extremos da vivência humana frente ao mundo (e, principalmente, aos outros), deseja-se cutucar o espectador nas suas certezas sobre suas próprias percepções do mundo e das relações.

Desde o começo do filme, já instala-se da parte do espectador um incômodo: seria esta alegria desmesurada de Poppy algo desejável? Será que é algo com que estamos preparados para conviver? Porque o fato é que a felicidade da personagem se mostrará muitas vezes asfixiante, tanto para alguns dos personagens em cena, como principalmente para o espectador.

Esta felicidade não se aproximaria de um certo estado de apoplexia? Ou a simples dúvida que temos sobre isso não seria ela mesma um reflexo do fato de que simplesmente não conseguimos lidar com a idéia de uma tal alegria?

Leigh se aproveita ainda desta sensação de estranheza frente à visão de mundo de sua personagem para nos colocar num estado de constante tensão no desenrolar do filme, pois tamanha felicidade nos parece estar sendo construída sempre como estopim de uma descida ao inferno típica do que entendemos como “realidade” (ficcional, principalmente). Será que esta decida é mesmo inevitável? A dúvida nos assola durante a projeção toda, dando um inesperado componente de suspense ao filme.

Os trabalhos de Leigh e de sua protagonista Sally Hawkins também levarão as dúvidas do espectador num outro caminho: afinal, seria essa felicidade transbordante da personagem algo real para ela ou apenas uma fachada que encontrou para sobreviver no mundo? De novo, os olhos e a expressão corporal de Hawkins não nos permitirão qualquer tipo de certeza ao longo do filme, nos dando seguidas indicações de que ambas as hipóteses são críveis.

Leigh estrutura seu filme a partir de uma série de “confrontos” de Poppy com situações que colocam este seu estado de espírito, digamos, efusivo em conflito com os fatos à sua volta – indo do primeiríssimo e mais leve (o furto da bicicleta que a vemos pedalando nos créditos) ao mais pesado e explorado pelo filme: a relação da personagem com o instrutor com quem tem aulas de direção, e que é o oposto perfeito do humor de Poppy.

Interpretado por um Eddie Marsan sempre à beira de um ataque de nervos, o professor Scott se encaixa perfeitamente na lógica de composição de personagens com que Leigh gosta de trabalhar, um tanto fora do registro naturalista-televisivo. A relação de Scott e Poppy obviamente não é a de personagens em estado de “fluxo”, como tem sido bastante visto no cinema contemporâneo: eles não estão ali “vivendo momentos” para a câmera captar e sim recitando diálogos dentro de um perfil exagerado de personagem com os fins estabelecidos por Leigh.

Claro que cabe ao espectador comprar ou não este jogo, este entendimento do mundo ficcional quase como um tabuleiro teórico onde as peças desempenham papéis determinados para o que o filme quer colocar em discussão. Algumas cenas e situações possuem mais fortemente este caráter quase discursivo (pensamos na do mendigo), outras menos (as aulas de flamenco, por exemplo), mas não o que não se altera é esse registro um tom acima.

Se deixamos de lado possíveis interdições ao modelo de composição ou de estrutura narrativa (onde, de novo, didático me parece um termo adequado, sem qualquer conotação negativa), é quase impossível não se impressionar com a forma apresentada aqui por Leigh, num dos momentos mais exuberantes de sua carreira (de novo, pensamos em Naked, Segredos e Mentiras e mais um ou dois filmes).

Os trabalhos de montagem e fotografia de Simplesmente Feliz são certamente das mais fortes e bem resolvidos de toda a carreira do diretor, servindo perfeitamente aos seus objetivos e resultando em algumas cenas quase perfeitas em ritmo e mudanças do cômico ao dramático e vice-versa (como o jantar em família ou a citada aula de flamenco). Leigh apresenta o seu problema de forma cristalina e cativante: o que é a felicidade? E, mais importante e subreptíceo: será que ela vale a pena? O filme não apresenta respostas fáceis pendendo para qualquer dos lados, apenas deixa o espectador sentir organicamente com a história dessas personagens que a dúvida o pertence.

* Eduardo Valente é cineasta e escreve na revista Cinética.

30 Comentários

Anônimo disse...

Pessoal,
Eu não gostava desse cineasta. Mas vendo seus filmes com calma passei a entendê-lo mais. Isso que o Valente fala é verdade: os filmes dele parecem simples mas não são. Eu, Milordi e Samuel, o alemão, vimos "Naked" - é uma pancada de sensibilidade. (Pedro).

Milordi disse...

Senhores e moças,
Pedro tem razão: esse cineasta tem um padrão de boa qualidade. "Naked" é imperdível. O melhor dele é fazer a gente achar que o mundo é "calmo e feliz". No meio da "normalidade" as coisas acontecem de forma bacana. Gostaria de ser ator de seus filmes. Assinado; Milordi.

amocadofigo disse...

humm.. me deixou curiosa. podia estrear amanhã.
sempre ótimas pautas no blog,professor Lisandro!
abraços

Lisandro disse...

Olá Moça do Figo,
Os filmes de Mike Leigh são especiais. É um dos meus cineastas prediletos na atualidade. Realiza filmes pseudo-melodramáticos e sabe usar as ferramentas da narrativa clássica para abordar temas importantes. Se puder veja o filme e vamos conversar sobre ele aqui.

Siuzete disse...

Olá!

Gostaria que me indicasse filmes importantes para a história, para a nossa história.
Às vezes fico em dúvida se determinado filme é bom ou não.. Qual o critério para a escolha de um bom filme?? existe objetividade na escolha ou impera mesmo a subjetividade, ou seja, o que é bom para mim pode não ser bom para você! é pessoal mesmo? Tenho dois filhos; uma de 15 e um de 16. Quais os filmes que devo indicar para eles que venham agregar algum conhecimento ou informação importante.
Gostaria de saber um pouco dos Diretores. Devo guiar-me por eles ou isto não é relevante?
Se quizer perder um pouco do seu tempo respondendo-me ficaria feliz!
Agradeço desde já.
Siuzete

Lisandro disse...

Olá Siuzete,
Aqui no blog: vá até o mês de outubro. Eu publiquei um texto denominado "O que é um bom filme?".
No mês de janeiro publiquei outros dois: "O olhar domesticado" e "A qualificação do olhar". Esse textos podem te ajudar a pensar as questões importantes que você traz á tona.
O melhor que podemos fazer em relação aos filhos é dar-lhe exemplos. Se gosta de ler e ver bons filmes, mais cedou ou mais tarde, eles vão gostar e compreender os seus exemplos.
Um grande abraço e pode fazer comentários no blog.
Lisandro.

Siuzete disse...

Obrigada pela atenção!

fiquei horas lendo seus textos e de outros em seu Blog. Gostei!
Ficarei atenta.

abraço
Siuzete

Obs. Fui assitir "Simplesmente Feliz". Sua percepção e colocações sobre ele são muito pertinentes. A Princípio fiquei um pouco incomodada com aquele "estado de felicidade". É difícil crer que possa existir "um estado natural de felicidade" INABALÁVEL! parece mais um estado ABOBALHADO! até por conta do nosso cotidiano que nos impede de enxergar coisas simples de beleza pura. Mas depois comecei a gostar e a pensar.... pensar...pensar...pensar. Será????

Anônimo disse...

Olá a todos.
Num primeiro momento ,e tecendo um opinião mais superficial, o filme apresenta-se como sendo fraco e que não traz elementos suficientes para despertar o interesse de um espectador esperançoso de algo denso e cheio de reviravoltas, ou ainda, de uma história leve mas com características marcantes.
Para além dessa primeira impressão, diria que o filme traz bons elementos para nos provocar acerca de o que é felicidade? Se a felicidade plena e total realmente existe?
Se o entendimento de felicidade é o que a personagem Poppy (Sally Hawkins) transmite nas cenas creio que tal felicidade seja equivocada. Certamente e, de maneira proposital, Leigh nos apresentou uma felicidade extremada. Da mesma forma o fez com o instrutor de autoescola Scott (Eddie Marsan ), ao nos apresentar um indivíduo extremamente nervoso e infeliz. Em meio aos vários personagens que rodeiam a vida de Poppy vou me ater apenas às ótimas cenas envolvendo Scott em seus momentos de fúria e Poppy com sua felicidade irritante ou como citou Siuzete " um estado ABOBALHADO" de felicidade.
Scott consegue “roubar” as cenas em que atua ao lado da protagonista do filme. Um show à parte de Eddie Marsan. E com ele também o ponto crítico do filme quando ocorre uma forte discussão entre o instrutor e Poppy chegando até a um princípio de agressão física.
Não conhecia o trabalho de Leigh ou até já tenha assistido a algum filme mas não me recordo. Desta forma já me programei para Naked (1994) e outras produções de mike leigh.

Fran disse...

Também confesso que não conhecia o trabalho de Leigh e me surpreendi. Assisti ao filme, a constante alegria de Pauline às vezes me irritou no filme, e aí percebi que no dia-a-dia somos um pouco assim, ou um tanto, sem paciência para a felicidade, sem cabeça para o que não está nos preocupando. Scott, por outro lado, se fez o lado sério dessa felicidade personificada, o lado pensante, e que por isso, por pensar o mundo, por pensar o sistema de educação, por pensar os perigos que os outros sempre oferecem, é mal-humorado, carrancudo, grosseiro. Mas isso não significa que Pauline não pense na vida, não reflita sobre ela, aliás, ela o faz o tempo todo. A diferença está em como os problemas podem ser encarados, como se não houvessem solução, ou como se a esperança de uma solução já fosse a própria resolução do problema.

Lisandro disse...

Fran,
Muito bom seu comentário. Hoje, nas aulas, dei ênfase ao filme. Ele é muito importante no momento. Ele tem uma "estrutura clássica" mas problematiza o tema e os personagens. E possui uma direção muito boa: Mike Leig é um grande cineasta. Meus alunos e eu não chegamos a nenhuma conclusão sobre o filme: Poppy é feliz? É atabalhoada? Finge ser o que é? É uma "bipolar", como afirmou um aluno? É alienada. Para mim é o exemplo de um bom filme: provoca indagações e não dá respostas prontas e previsíveis.

Renato Dantas disse...

Depois das discussões em sala de aula, não resisti e fui assistir a “Simplesmente Feliz”. Ao contrário de alguns outros alunos, não me senti sendo repelido, em algum nível, pelo filme e seus personagens. Ainda que a protagonista soe demasiadamente estranha ou deslocada de uma abordagem mais realista, sua felicidade me cativou. Lembrou-me o "Fabuloso Destino de Amélie Poulain": Poppy e Poulain compartilham uma maneira única de ver o mundo e de reagir aos acontecimentos deste. Suas semelhanças vão além: da improvável combinação de cores de suas vestimentas (que revelam traços indeléveis de suas personalidades) ao objetivo altruísta (ao menos aparentemente) de levar algo de felicidade a outrem.

Se eu digo que suas intenções aparentam altruísmo, é mais pelas suspeitas que recaem sobre Poppy do que pelo o que eu realmente penso. As discussões que cercam esse filme tendem a fixar-se na natureza demasiadamente feliz da personagem. Um estado de quase inabalável euforia destoa do que encontramos costumeiramente no cinema ou mesmo na vida. No entanto, recordo-me de uma ou duas pessoas que conseguiam o feito de extrair humor das situações mais improváveis. Talvez por isso, Poppy não tenha me parecido tão incrível.

De todo modo, como disse Eduardo Valente no texto publicado neste blog, os personagens, em algumas situações, mais parecem peões do diretor Leigh sendo guiados a fim de colocar em cena uma tese ou, ao menos, uma discussão. Ainda que o faça, Leigh deixa entrever a profundidade dramática da personagem quando esta se entrega a um momento de abalo emocional. Ora, Poppy não era, afinal, uma fonte inesgotável de euforia. Ela sabe reconhecer e dar valor às situações que exigem uma outra maneira de sentir; e sentiu-se triste, ainda que por pouco tempo.

Talvez o que o filme sugere é que a felicidade não pode ser mensurada ou restrita a perguntas como da sua natureza ou da sua real existência. Provavelmente felicidade simplesmente parta de critérios profundamente subjetivos. A ver, a írmã da protagonista, casada e grávida, revela-se muito mais insegura sobre seu estado emocional e sua vida do que Poppy, ainda que aquela esteja amparada pela segurança do "sonho americano". Penso que o que filme propõe é a possibilidade de uma outra maneira de se repousar o olhar sobre o mundo; ao invés de nos apavorar com o fato de a torre de Washington medir 666 metros, deveríamos ater nossa atenção e despender nossa preocupação apenas com o que realmente valha a pena. Ou talvez Poppy tenha me contagiado e eu esteja sendo muito otimista...

Lisandro disse...

Caros alunos,
Minha insistência rende frutos. Professor deve ser sempre "chato" com aluno e insistir muito: Renato acabou de postar um belo texto/análise sobre o filme "Simplesmente feliz". Parabéns!!
Que outros sigam seu exemplo.
ps- Renato, caso queira, poderá ser um bom crítico de cultura - não só de cinema. Está no caminho....
Lisandro

Fran disse...

Belo texto mesmo Renato. O que é mais engraçado de tudo isso, é que depois que saí da sala de cinema, toda e qualquer situação extrema que me encontro, me pergunto: como Pauline reagiria agora? Com certeza fazendo mais uma das piadinhas e brincadeiras...por isso, penso que o filme realmente atingiu algum objetivo, pelo menos em mim, seja lá intencional ou não. Penso também, que, por isso mesmo, este não é um filme passageiro, mas um dos poucos que realmente conseguem mudar um pouco nossa bagagem pessoal, a qual já está pronta ao entrar na sala de cinema, uma bagagem cheia de impressões e visões de mundo que podem ou não concordar com o que o filme transmite, e podem ou não serem transformadas por esse conteúdo. Ao final de tudo, concordo com o que Renato diz, não se faz impossível a existência de pessoas que levam a vida um "pouco menos a sério", sem essa total necessidade de sentir sofrimento e angústia pelo simples fato de ter que viver, como a maioria.

Cleuza Dias disse...

O filme é muito bom mas tem momentos chatos demais. Gosto mais de Segredos e Mentiras. A atriz é genial.

Minia Gomes disse...

Questões sobre o texto "O olhar domesticado".

- O levar ao choro não é hoje uma estratégia interessante de envolvimento, visto que enquanto indústria dos sonhos, o cinema vende emoções que no corre corre da pós-modernaidade dificulta até a expressão dos sentimentos. Nesse caso a narrativa se mantém por uma questão de lucro, ou porque é realmente mais interessante ao cinema manter uma narrativa que ja se consagrou?
- Percebendo essa tendência brasileira e notando que os índices de lucro do cinema nacional tem aumentado significativamente já que a tendência é sairmos dos apoios estatais e conseguirmos o mercado, dá pra dizer que o esperado do cinema brasileiro era que ele se tornasse realmente uma industria dos alivios e espelhos da sociedade?
- A questão da psicopatia como resposta para os personagens não enquadrados é um lenitivo que a sociedade encontra para não peder seu refugio nas salas de cinema? Pensando assim isso vem sendo trazido para as novelas no caso da Yvone da novela das oito, onde seria impossivel a alguém ser tão ruim, portanto a melhor resposta está em dar a eles a alcunha de psicopata?
- A questão Gosto não se dicute dá pano pra manga. Pelo jeito vc. acha que goste se discute sim, então o que se dicutir no gosto? O ato de gostar, ou a lente, o recorte que se usa para definir esse gosto?
-Concordo contigo na análise do filme sete vidas. Realmente não problematiza, não mostra soluções, vitimiza um Will smith louco por tirar o estigma de ator de ação ou comédia (porque oscar só pra quem chora e faz chorar). Mas ainda fico comigo na questão PORQUE essa necessidade de fazer chorar? Sai mais barato ir ao cinema colocar as emoções pra fora no escurinho que pagar um analista? Essa é a razão do sucesso do melodrama, fuga pessoal?
- Ainda num tá claro pra mim o que vc. denomina gosto melhor. O cult não é gosto melhor, o Hollywodiano também não... filme de arte não pode entrar na dicussão porque esse é pra quem gosta mesmo. Gosto melhor seria então busca por adensamento? E se a pessoa não quiser ser densa, quiser apenas ser visual, ela não tem gosto?


- Defina melhor iamginação melodramática

Minia Gomes disse...

Sempre me pergunto porque o ser humano tem perguntas que nunca esquece, principalmente porque talvez nunca irá encontrar uma resposta que seja realmente aceitável. Quem é deus?, Porque jovens morrem? O que é felicidade?
Nós seres extremamente rebelados contra o tal destino, buscamos avidamente uma resposta racional, ao que a meu ver, a razão não abarca.
Por sugestão de um professor assisiti na segunda um filme de Mike Leigh, um cineasta que gosta de discutir o cotidiano ( mais um humano revoltado). Até então era desconhecido pra mim, porque fora Sir Alfred Joseph Hitchcock, nunca tive muita empatia com cineastas ingleses. E aparentemente mantenho a opinião.

Simplemente Feliz, é um filme, meio água com açucar que tem poucos pontos altos. A discussão batida do que venha ser felicidade torna o filme massante ( veja bem eu achei, tem gente que conseguiu até fazer reflexão de vida com ele). Poppy a persoagem principal vivida pela atriz Sally Hawckins é uma trintona com complexo de peter pan que faz uns péssimos trocadilhos na intenção de dizer que está sempre muito bem humorada. Inevitavelmente não pude deixar de lembrar da música do Oswaldo Montenegro que diz: " Ah todo chato é bonzinho, não como evitar, todo chato é calminho, como se faltasse sal... Ah todo chato te conta aonde passou o natal e sempre te dá uma dica de onde ir no carnaval" . O Filme é uma sequência sem graça de diálogos-monólogos ( é isso mesmo, parece que sempre os personagens estão falando consigo ) onde a melhor cena é a dela com o mendigo. Cena fantástica, talvez uma das poucas que fez o filme assistível. Quase não há falas, mas no silencio dos personagens e na repetição do diálogo há uma circularidade na comunicação onde ambos se entendem e nós que vemos o filme entendemos mais ainda.
Li em uma crítica que o tema proposto por Leigh é claro e límpido. Não acho. Pra mim ele usa uma lente idiossincrática muito forte na construção de Poppy. Ele diz ainda em outra entrevista que Poppy é um espirito livre , e a pergunta é livre de que? Que concepção de liberdade é essa? Porque ela está fora dos tais padrões ela é livre? E a prisão que ela constroi ao redor de si, ao criar um mundo a parte onde ela nega pra si a realidade presente em seu cotidiano. Poppy apenas se eximiu de lidar com suas próprias limitações enquanto ser humano. Não há equilíbrio em Poppy, portanto ela apenas é o espelho dos outros personagens com quem ela é comparada.

O Filme creio, não deveria tratar de felicidade mais sim de percepção do outro. Talvez a única coisa interessante na mal vestida Poppy, seja o fantástico senso do outro que ela tem. E penso que ser for para discutir a tal pergunta filosófica : O que é Felicidade? Então creio que devia-se partir dessa percepção do outro que Leigh apresenta. Nem imagino se essa era a real intenção dele (só vendo outro filme pra saber), mas buscar na existência do outro o entendimento da própria felicidade, creio, seja o melhor caminho. Impossivel entender felicidade cultivando o egoismo e o orgulho. Assim nossa garotona do filme quando deixa de lado seu mundo de flores de papel, talvez enxergue bem o que é ser feliz e nós espectadores também.

Pedro Vinitz disse...

Pessoal,
os textos da Francielly e do Renato estão bons demais. Parabéns!! Mas faltou comentar a música do filme.Eu fiquei torcendo para ter alguma coisa dos Beatles na trilha. Pena!! Penny Lane pegaria bem assim como algumas coisas do Paul. (Pedro)

Thiago Lopes disse...

“Dizem que sou louca por pensar assim
Se sou muito louca por eu ser feliz
Mas louco é quem me diz que não é feliz
Não é feliz”
(Balada do Louco – Rita Lee)


Ao me deparar com Poppy pela primeira vez tive a inquietante sensação de estar diante de alguém irritantemente feliz, efusiva ao extremo, o que foi se transformando no decorrer do filme. A personagem conseguiu me cativar aos poucos, extraindo-me sorrisos tímidos que foram gradativamente se tornando gratuitos. Poppy, ou Pauline, é mostrada como uma alegoria para a Felicidade, o que é pretensioso de se dizer, pois a felicidade não é algo que se define. No entanto, é fácil de perceber quando vemos alguém feliz, e “ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade” disse Carlos Drummond de Andrade certa vez. Assim, Poppy com seus sorrisos e ironias saudáveis vai se relacionando com outros personagens que apresentam características particulares como a sensatez, o pessimismo, a descrença e tentando cativá-los também com sua alegria.

No início do filme vemos Poppy, uma garota com roupas um tanto excêntricas e com um ar etéreo no rosto, entrar numa livraria e parar diante de um livro, “O Caminho para a Realidade”, e recusá-lo dizendo “Não quero ir pra lá” e posteriormente começar a ler trechos de outro, chamado “O Reino do Sol”. Aqui percebemos que a Felicidade não exige um estado de Realidade, que é preciso ter um pouco de fantasia para se deliciar num mundo onde o real pode ser feio e sem graça. Após sair da livraria ela percebe que sua bicicleta foi roubada, e ao contrário do que muitos de nós faríamos (pronunciar nomes tão feios e deixar a raiva nos consumir) ela apenas solta uma de suas ironias (“E eu nem tive a chance de me despedir dela”) e tira da situação um objetivo novo, o qual o filme se desenrola, Poppy decide que está na hora de aprender a dirigir.

Seu instrutor de direção, Scott é de um humor completamente oposto, sério, arrogante e mal-humorado. Enxerga as peripécias de Poppy como bobagens, brincadeiras estúpidas que não são apropriadas para ela. Com o desenrolar das aulas, Scott passa a questionar Poppy também, como se ela estivesse ganhando a confiança dele aos poucos. Nas muitas conversas que se seguem, ele diz que acordou para a vida há muito tempo e questiona Poppy “Olhe a sua volta, o que você vê? Você vê felicidade? Vê uma política de levar felicidade as pessoas? Não. Não. Você vê ignorância e medo”, aqui vemos a lente pela qual Scott enxerga o mundo, com descrença, criando muros a sua volta que o impedem de aproveitar as pequenas coisas. Poppy apenas lança um olhar de pena e ao sair do carro lhe dá um conselho: “Alegre-se!”. Apesar do conselho dado, Poppy fica pensativa sobre o que ouviu, mas não se importa tanto assim.

Mais adiante, temos uma sequência bastante metafórica do filme, ainda pensativa Poppy desvia de seu caminho e mergulha em uma atmosfera diferente, encontrando um mendigo, um louco. A alegoria aqui explícita é o encontro entre a Felicidade e a Loucura, Leigh consegue mostrar um limiar entre os dois, o quão próximo um pode estar do outro e a parte cômica, um entende o outro. Na letra da música “Balada do louco” de Rita Lee, citada no início do texto, é possível compreender essa relação. Ele deixa claro que os dois têm muito em comum, mas são distintos, fato mostrado quando Poppy e o louco se despedem seguindo por caminhos opostos.

Ao visitar sua irmã, Helen, Poppy nos apresenta outra personagem que é extremamente ligada à realidade. A sensatez e seriedade de Helen conseguem ser desconcertante, o que é percebido na expressão de seu marido. Helen diz a Poppy que ela precisa ver a vida com seriedade e que quer vê-la feliz. Poppy rebate dizendo que é feliz e que adora seu estado de liberdade. Isso irrita sua irmã, que apesar de seguir todas as regras se mostra insegura em relação a seu futuro, como se a felicidade de Poppy fosse algo insustentável para ela.

Em um trecho do filme, Poppy conhece um cara com um humor leve como o seu e tão otimista quanto. Eles se relacionam o que provoca ciúmes em Scott que deixa claro suas emoções. Neste momento há um clímax no filme, que é a discussão entre Poppy e Scott. Voltamos a idéia da alegoria se analisarmos o discurso de Scott, que em fúria diz: “Você quer que o mundo gire a sua volta, você me seduziu, você me envolveu e mentiu pra mim. Por quê? Porque você quer ser adorada”. Como se ele, que antes não sabia o que era a felicidade, mas almejasse por ela, e ao conhecê-la e se envolver com ela, a visse escapulir por suas mãos. A sensação de perder antes mesmo de ganhar. Afinal é isso que todos queremos, desejamos a felicidade, nossas ações são em prol dela, nos deixamos seduzir por ela, mas sofremos quando ela acaba, não entendemos que a felicidade é um estado passageiro. Poppy apenas responde: “Eu só queria te fazer feliz”.

Poppy no fundo é apenas um ser humano como todos os outros, mas com o diferencial de aceitar a felicidade como uma possibilidade de estado humano, como nos disse Eduardo Valente. Em alguns poucos momentos do filme, presenciamos situações as quais certamente nos deixariam tristes, mas Poppy escolheu pensar, vendo que poderia se deixar tombar ou poderia escolher sorrir e assim o fez. Por fim, saímos da sala de cinema sem saber definir o que é a felicidade, mas com a vontade de continuar buscá-la, sendo cativados pela felicidade da personagem com um sorriso tímido no rosto.

O filme segue uma estrutura clássica, retratando uma suavidade de apresentar os fatos e cenários simples e comuns. No entanto, Mike Leigh brinca nesse processo de construção utilizado os personagens, principalmente Poppy e Scott que são extremos, como se fizesse uma crítica discreta ao naturalismo comum. Ele nos faz levantar dúvidas sobre o que se passa na tela, não é apenas uma realidade estática e imutável. Nos faz pensar a respeito da felicidade, o quão atingível ela pode ser, se queremos admiti-la em nossas vidas ou declarar que de fato não a temos. A fotografia do filme foi tão bem colocada como a trilha, que acentua as emoções ao longo das cenas.

Lisandro disse...

Olá Thiago,
Seu comentário ficou bom. Mas discuti-lo em sala de aula.

Caroline disse...

Assisti o filme hoje a tarde e confesso que ainda estou digerindo minhas impressões. Logo nos primeiros 20 minutos pensei 'Se eu conhecesse alguém como a Poppy não conseguiria conviver com ela nem por um dia!'
Me incomodou aquela felicidade (a meu ver totalmente forçada propositalmente), as cores berrantes por todos os lados, a diminuição de problemas que deveriam ser mais discutidos (como o caso do menino que aparentemente sofria abusos do namorado da mãe).
Mas tudo isso são só impressões iniciais...
Parabéns a todos pela discussão e pelo que parece ainda há muito a ser falado sobre este filme.
Obrigada.

Bruno Abdala disse...

Tive a mesma sensação de um colega, que em sala de aula, afirmou não ter conseguido "adentrar" o personagem principal do filme Simplismente Feliz. Eu também me senti deslocado de sua história e, pricipalmente, de sua personalidade. Talvez tenha me identificado mais com os coadjuvantes, creditando a eles um certo egoismo de não aceitar Poppy da maneira como ela quer se mostrar, ou da maneira que ela realmente é. Talvez faço aqui um comentário de senso comum e não tão profundo como outros, mas a história me deixou crer que

Bruno Abdala disse...

Tive a mesma sensação de um colega, que em sala de aula, afirmou não ter conseguido "adentrar" o personagem principal do filme Simplismente Feliz. Eu também me senti deslocado de sua história e, pricipalmente, de sua personalidade. Talvez tenha me identificado mais com os coadjuvantes, creditando a eles um certo egoismo de não aceitar Poppy da maneira como ela quer se mostrar, (ou da forma como ela realmente é). Talvez faço aqui um comentário de senso comum e não tão profundo como outros, mas a história me deixou crer que somos nós os mais egoistas, e não Poppy, diferentemente do que comentaram alguns colegas na aula. É incrível como nós nos incomodamos com a vida alheia. Talvez não percebemos o prazer que sentimos quando alguém sofre, mas percebemos sim, um enorme desprazer quando alguém está o tempo todo feliz. Sentimos a necessidade do sofrimento alheio. Isso certamente é explicado por algum estudioso no assunto, que não ouso pesquisar agora, mas sem estudos teóricos, percebo com a minha própria prática.

Vívian Rodrigues disse...

O fato de Poppy demonstrar em todos os momentos sua felicidade extrema, um sentimento que deveria ser de admiração (afinal, não é isso que buscamos todo o tempo?) dá lugar a uma irritação imensa. Sua característica mais marcante, que é a felicidade, perde espaço para o egoísmo. É como se a personagem não se "desse ao luxo" de achar de algo ruim pode acontecer em sua vida. Ao meu ver, Poppy não quer ter uma opção para ser ou não ser feliz. Ela simplesmente escolheu essa forma de levar a vida e tenta fazer com que todas as pessoas ao seu redor façam também essa escolha.
A grande questão do filme, no entando, é instigar a forma com que as outras pessoas reagem convivendo com a Poppy. O relacionamento dela com o instrutor - Scott - evidencia a dificuldade dessa relação. Quando os dois começam a se encontrar com frequencia, nas aulas de direção, Scott deixa claro que o fato de Poppy não deixar que coisas ruins abalem sua vida faz dela uma mulher ingênua. Nesse momento, consegui me identificar com o instrutor, talvez com pena de Poppy, pena por ela não perceber que nem tudo é bom.
Em Simplesmente Feliz, Leigh promove uma confusão nas mentes que tentam decifrá-lo. Observando o desenrolar da história, me deparei com uma série de perguntas e dúvidas na qual as respostas eram outras perguntas. Existe felicidade? Poppy é feliz? A definição de felicidade para a personagem é a mesma da minha? E até onde vai essa felicidade? Talvez até a favela mais próxima, ou talvez eu ignore o que acontece ao meu lado e acredite em uma felicidade extrema. Enfim, é atrás dessa felicidade que estamos?

Lorena Gonçalves disse...

Ontem uma amiga comentou suscintamente: "Não assista a Simplesmente Feliz!". Como eu já havia assistido, perguntei o porquê da indignação. Ela me contou que o filme era ruim, que a personagem era idiota, e que a história era muito cansativa, não tinha "ação".

Então começamos a debater sobre a finalidade do filme, e encontramos uma intersecção de pensamentos. Superficialmente ela não havia percebido, mas após sair do cinema, as dúvidas propostas por Simplesmente Feliz pairavam sobre sua mente. O filme incomodou, trouxe reflexão exatamente pela falta de identificação com a personagem principal. Por isso o adjetivo "ruim". É uma forma de expressar como o filme não a fez sentir confortável.

Lisandro Nogueira disse...

Os comentários mais recentes: Thiago Lopes, Minia, Bruno Abdala, Dã Paranhos e Vivian estão bons e vamos debatê-los nas próximas aulas. Observem a diferença entre um filme "clássico" e o "Simplesmente feliz": há uma diferença enorme apesar da "estrutura clássica" utilizada pelo Mike Leigh. Vejam tb. dele "Segredos e mentiras" e "O segredo de Vera Drake".

Marina Muniz Mendes disse...

"criança pura, de olhar despreocupado e o rosto sonhador de maravilhas", essa definição da Alice, em Alice no país do espelho, se encaixa perfeitamento com a figura da Poppy, em Simplesmente Feliz. Ao assistir ao filme, não duvidei em nenhum momento de que a felicidade da protagonista fosse vazia, pelo contrário, se essa discussão não tivesse ocorrido na aula de "Olhar domesticado" eu nem pararia pra duvidar da felicidade dela. Ao assistir ao filme, em todos os momentos, eu aceitei entrar no faz-de-conta, não só do filme, mas no faz-de-conta da personagem, que ao meu ver é tão complexa que pode se confundir com boba. Não encontrei na Poppy uma personagem bem definida, construida sem conflitos internos ou características que podem ser facilmente definidas. Encontrei na Poppy (simplificando, para fins de discussão) uma personagem segura de si, e que apresenta um constante estado de bem-estar, mas que também vive, intensamente, momentos onde ocorre a quebra desse estado de bem estar. Poppy se construiu assim, ela quer ser feliz o tempo todo e consegue fazer isso de um jeito natural e nada forçado. Além disso, os momentos que levam a interrupção do seu estado de bem estar não levam contornou drásticos, que mudam seu modo de ver a vida ou sua rotina de vida, como o caso em que ela descobre que seu aluno sofre agressões do namorado da mãe. No cinema clássico hollywoodiano, esse fato não se daria desse jeito, afinal o estado inicial violado deve ser reestabelecido, mas essa busca pelo estado inicial modifica as personagens e é levado extremamente a sério, no sentido, de que "na vida real" isso não acontece. Poppy fica extremamente chateada com a questão da violência contra seu aluno, mas deixa que esse fato apodere da sua vida. Poppy está em constante mudança, mas costuma conservar a unidade do bem estar e felicidade, quando possível. Afinal, como diria Alice "Quem é que sou? Ah, essa é a grande charada"

amocadofigo disse...

Depois de finalmente ter assistido, aplaudo "Simplesmente Feliz".
Mas não por suas gracinhas, seu clima incômodo (para alguns) da felicidade do próximo. Mas, simplesmente por ter sido algo além do que eu esperava.
Após ter lido o texto de Eduardo Valente, pensei que o fato da protagonista ser extremamente feliz e de transpirar isso 24horas por dia sobre quem estivesse ao seu lado iria me irritar a ponto de arrepender de ter entrado na sala de cinema. Mas até que não. Ao contrário, gostei bastante do filme. A pegada crítica com relação a encarar a vida real, a violência, a educação foi ótima. Tão ótima que tira o ser feliz o tempo inteiro um pouco do foco.
Questionar a felicidade é muito pertinente, seja ela minha ou do outro. Talvez por isso, alguns mais que outros se incomodem com a felicidade da protagonista.
Para mim incomodou pouco. Às vezes, soava como forçada, um tanto meio bêbada-feliz, bêbada-cheia-de-querer-fazer-graça. E outras, apenas vínha-me à cabeça a imagem de Björk, de "Dançando no Escuro", mixada com a cantora Feist, no clipe "1234".
Poulain, Renato? Bem, acho que pouco. Penso que Poppy, mesmo com seu 'abobalhamento', é mais pé no chão que Poulain. Poppy sabe o que a rodeia, perfeitamente, mas na maioria das vezes ignora através da "felicidade" . Apenas quando a "realidade" invade suas percepções de um mundo colorido - a (visual e muda) briga entre dois alunos na escola, o cantar do mendigo que fura a noite silenciosa, ou o instrutor que agride fisicamente e verbalmente Poppy.
Sobre as opiniões aqui registradas, as que definitivamente não concordei foram sobre o figurino.
As roupas de Poppy tem, além do ar alegre, um ar vintage com pegada fashion. Não vejo como improváveis e nem como mal vestida. Nada fora das passarelas, de revistas ou da vida de artistas famosos. Apenas, fora das convenções, do tradicional e das ruas brasileiras, com exceções.
Tirando isso, concordo com Renato sobre a quantidade de risadas, contadas nos dedos, que Poppy consegue arrancar (percebi no público ao meu redor), mesmo que isso não seja a intenção do cineasta. *com exceção de um grupo de amigas que entraram no melodrama de cabeça e de mãos dadas, quase como em Thelma e Louise.
Concordo com Eduardo Valente ao destacar as relações de Poppy com outros personagens de forma mais curta, como o vendedor da loja de livros, o mendigo, a irmã grávida e seu marido, as aulas de flamenco, e claro, (destaque meu) o aluno de Poppy que se mete em brigas na escola. Nessas, a reflexão e o riso, em diferentes níveis (com exceção do aluno de Poppy), fizeram a diferença, tornando a "felicidade inabalável" uma firulinha (feliz) para desenvolver o filme. O melhor, definitivamente, fica por conta de outras situações que não envolvem o riso ou a áurea de felicidade.
Alguns pontos...
- Será que só eu que percebi um riso de canto de boca de Scott em alguns momentos que Poppy desenfreava em "jogar flores" sobre o instrutor para ver se ele se soltava? Cheguei a pensar que nesses momentos Scott ia soltar uma gaitada, como diria minha mãe. hehehehhe
- A cena do mendigo também foi para mim a melhor (Mínia). O subjetivo no olhar e nas poucas palavras tecem um pouco de poesia ao filme e abrem portas/janelas/frestas para maiores questionamentos.
- “Percepção do outro” iria entregar o filme, mas seria uma alternativa para a "tradução livre" do título do filme em português e quem sabe, até para o inglês (Mínia).
abraços, Lisandro!

Ana disse...

Estava lendo o comentário da Siuzete e preciso concordar com ela. "Simplesmente Feliz" nos leva a questionar nossa própria felicidade. Ou até mesmo os nossos momentos de infelicidade, muitas vezes definidos pela sociedade. Por que ver uma pessoa "simplesmente feliz" é vista como louca? Se achamos graça em tudo que vemos, se tentamos levar a vida tentando ser felizes ao extremo, seremos taxados de loucos, talvez até mesmo internados.
Quanto à felicidade de Poppy, acredito que ela seja sim, infeliz. Bem lá no fundo, ela é infeliz, ela sofre, ela tem problemas, claro, como todos nós temos. Mas ela tenta passar por cima desses problema e dessa infelicidade, não demonstrar o que realmente sente, e tentar ser feliz. Para se proteger de sofrimentos maiores e para proteger também as pessoas ao seu redor. Por se preocupar com essas pessoas, Poppy quer mostrar pra elas um mundo que talvez só exista em sua imaginação: a felicidade existe sim. Ou talvez não... talvez esse mundo esteja aí para todos nós... e nós é que somos cegos o suficiente para vê-lo. (Ana Carolina)

Lisandro disse...

Olá Ana: bom texto.
Um aviso: postei um pequeno texto no início do blog: colei todos os comentários lá em cima. Vamos continuar comentando lá...

Anônimo disse...

Bom, vou arriscar um palpite sobre o “simplesmente feliz”.

Ao assistir ao filme fiquei lembrando das discussões em sala de aula e me perguntando o tempo todo o motivo de toda aquela felicidade. Poppy é realmente feliz? É Louca? Essa felicidade é um mecanismo de defesa que ela usa para esconder sua tristeza? O filme deixa espaço para todas essas interpretações e outras.

Sai do cinema como muita gente saiu, angustiada com demasiada felicidade. Percebi então que felicidade demais incomoda, incomodou a mim e aos outros personagens da história como a irmã de Poppy e Scott. Acredito que a relação que ele tem com Poppy é a representação da relação que ela tem com espectador, o que ela causa no espectador (fui assistir ao filme com um grupo de amigos e um deles em certo momento falou “nossa até a voz dela é irritante”).

É difícil ver Poppy e não se lembrar de Pollyanna, personagem feliz dos livros infantis de Eleanor Porter. Ao contrario do que alguns colocaram, não acredito que Poppy tenha senso do outro, na verdade acho que o egoísmo da personagem venha da falta completa de senso do outro que ela tem. Scott inclusive sofre com essa falta de percepção, Poppy não percebe o que ela esta causando no mal humorado instrutor de auto-escola.

Ninguém é 100% feliz, Poppy também não. Ela mostra isso ao ficar triste após a discussão com Scott, mas escolhe a felicidade e deixa claro que não se contagiou com o humor tipicamente britânico do instrutor de auto-escola ao falar para a amiga no final do filme “continua remando que eu continuo sorrindo”. (Bárbara Camargo)

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